Postado por: Renan Accioly Wamser | Julho 15, 2008

Amargura

       No lado leste do sertão de Minas Gerais, região pobre e desertificada pela extração do algodão, havia uma cidade chamada Quixim dos Baratinas. Era nesse pequeno vilarejo, descendo dois quilomêtros morro abaixo que morava o garoto Sillas. Em uma casa de grande varanda e um jardim extenso dos mais diversos tipos de plantas, em sua maioria já secas. Uma casa de inúmeros cômodos e janelas quadriculadas, diziam que era da época do escravismo, a casa dos peões. Vivia sua mãe, sua irmã mais nova e o Seu Zezo, o pai, além do cão Chumbinho.

Sillas sempre gostou de morar por ali, achava que o resto do mundo, que ele assistia a noite na pequena TV parabólica, era de uma bobagem incompreensível. Devido ao que as pessoas eram capazes de fazer com as outras, Sillas nunca pretendeu sair de sua terra e nem se desvencilhar da sua família. Passava os dias ajudando os pais com as tarefas da fazenda, passeando a margem do pequeno riacho que desembocava ali perto e andando a cavalo na imensidão daquele sertão generoso.

Ao longo de uns 70 metros da casa havia um declive de terra que acabava por esconder uma extensão do lago. Era como se fosse uma grande caverna, não tampada por rochas, mas por centenas de grandes árvores, algo totalmente distinto da vegetação do local. Era lá que o garoto mais gostava de ficar, entre aquela imensidão de sombras. Com restante de tábuas da reforma do curral e acima da maior das árvores construiu uma casa. Era perfeita, com escada, janela e até um grosso cipó para saídas mais apressadas. Ficava lá até o sol descer e tornar vermelho todo o horizonte, quando sua mãe gritava lá do meio do caminho. Era hora do jantar.

Fora avisado que no dia seguinte o tio Eustácio, da capital, chegaria para passar uns dias com seu irmão, o pai de Sillas. Nunca foi muito com a cara do tio, aparentava ser rude. Tinha uma barba grossa que tampava as marcas do seu rosto, que não eram poucas. Pôs-se a dormir até que no raiar do sol seu pai lhe acordou para que o ajudasse a apartar as vacas e tirasse leite de alguma delas para ajudar no sustento da fazenda. Quando voltou do curral, lá pelas dez da manhã seu tio já estava lá no alpendre do casarão segurando um pedaço de cana-de-açúcar e proseando com a mãe de Sillas.

Trocou um cumprimento com o tio e estranhou o quanto foi simpático, chegando até a lhe perguntar sobre namoradinhas e dar um leve tapinha em suas costas. Tamanho afeto nunca havia acontecido entre os dois, nem sequer conversavam. A mãe de Sillas lhe perguntou se poderia cortar a cana para seu tio, já que sempre carregava um belo de um canivete em sua bainha. Sillas cortou e passou os pedaços para sua mãe, quando foi pressionado a dar uma volta com seu tio para mostrar a fazenda, lugar esse que ele já conhecia de cor.

Ao passar pelo curral e a represa da fazenda, seu tio já havia lhe falado diversas afirmações sobre morar na capital e como a vida aqui era mais sossegada. Deslocou sua mão no ombro do pequeno garoto e continuou caminhando. Depararam com o refúgio de Sillas e o garoto temeu em lhe mostrar onde passava a melhor das suas horas. Mas ao ver a casa na árvore seu tio teimou em querer subir e ver tudo de perto. O rabo gordo de Eustácio subiu aquela escada fazendo estalar cada milímetro da madeira.

Seu tio resolveu sentar no toco que servia de poltrona e vir a falar de como estava bem feita, o garoto só se desviava das perguntas, cada vez mais freqüentes. Então Eustácio se levantou calmamente e falou que iria agradecer ao menino pela volta e iria lhe dar um presente. Desarrochou o sinto e puxou as calças para baixo. Com apenas 13 anos, Sillas nem sabia o que havia de acontecer ali. Só conseguia se lembrar de algo que havia visto na TV um dia. Algo sobre um homem que havia abusado de crianças.

Como que num reflexo Sillas empurrou Eustácio. O velho teimou em se aproximar e puxar os ombros do menino em direção a sua cueca. A cara do velho era desgostosa, havia um sorriso na sua cara misturado com uma malicia e a insatisfação de não estar conseguindo o que queria. Sillas descontrolado tentava escapar, mas o velho havia bloqueado a passagem de saída. Lembrou da cana-de-açúcar, da sua família e do canivete.

Puxou o canivete e sentiu uma boa sensação. Mirou no estorvo que o velho almejava e atingiu a virilha, foi rasgando a extensão da coxa até a marca da cirurgia de apêndice. Vazava sangue para todos os lados, o velho sentia a fúria e desgosto de ser um safado. Sillas ensopado de sangue agia como um animal atacando a preza. Estocou-lhe mais três furos na barriga e chutou o velho lá de cima. Aquele monte de banha caiu como um trambolho ao chão e lá ficou esparramado enquanto o sangue descia rio abaixo.

Sillas agora estava livre, pensou em tudo que tinha acontecido, mas sem pensar nas conseqüências. Agiu de forma espontânea. Levantou, olhou para si mesmo e para o velho, sentiu o ódio tremendo em seus dedos, arremesou o canivete longe. Ouviu sua irmã lhe chamar e se assustou. Pensou no que pensariam dele depois disso e por que o velho havia tentado tal coisa. Puxou o cipó a sua frente, enrolou no seu pescoço e de lá pulou, como se fosse um salto para liberdade apenas ouviu-se o estalar do seu pescoço.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Junho 16, 2008

Bairro das Noções

A seleção brasileira não joga a bola que jogava antes, o passarinho mais inteligente é o João de Barro porque ele constrói a sua residência e a maconha é a porta de entrada para as outras drogas. Poderia argumentar vários desses fatos e suposições, mas ficar calado é bem mais vantajoso. Não me importo com finanças, caixa, atividades, rotinas dos outros e muito menos se a faculdade vai demitir um bocado de gente. A corda arrebenta sempre para o lado mais fraco. Fraco sou eu, os bêbados, os pobres e os artistas. É só a continuidade do processo.

Que o café é uma bebida respeitosa, eu também acho. É quente, acolhedor, forte e escuro, assim como o verdadeiro povo brasileiro, os que representam a terrinha. Os lavradores, jardineiro, músicos, sambistas e traficantes. Mas eu não gosto, sabe. É amargo, queima a boca e tira o sono. Prefiro beber algo gelado, parece que ali no gelado é que tem vida, provoca sensações e alívio de toda a imundice. Se eu pudesse escolher o clima, o calor bastava. Quente demais, torrando a cara de cada um que caminha no meio das avenidas e ruas, iguala as sensações no empresário de terno e o no pedreiro de colete.

Nordeste do Brasil. Pobre demais, mas é isso que nossa população é. Pobre de idéias, ações e de arte. Mas não ali no nordeste, ali isso aflora. Mas é preferível falarmos de Londres, lá nas telas gélidas, com os grandes nomes do rock, de rainhas e belezura. Tudo tão chique e glamuroso, as pessoas querem morar lá, usar bandeiras da Grã-Bretanha na sua jaqueta e falar que o Sex Pistols foi o acontecimento. Nada disso, tudo uma grande besteira enlatada. Eles têm o Ariano Suassuna, Luiz Gonzaga? Não tem nenhum desses tipos que aparecem do nada para fazer tudo.

Ano passado, estava começando a falar com uma garota da faculdade. Não a conhecia, mas sabia que apreciava o rockzinho juventude. Desses tipos que tem agora as montes. Tatuagem, piercing, Ramones e toda a baboseira de eu-sou-alternativo-cult-pranchinha-, falei algo sobre o nordeste e ela retrucou que deveria ser eliminado do país. Terra pobre é inútil aquela - ela disse. Pé atrás, mão na frente, meu bem. Sai, desisti e pensei que o mundo está perdido por isso também. Por falar do que não conhece, por assistir Girls of the playboy mansion e achar que o sertanejo nasceu com Leandro & Leonardo.

Estou querendo voltar pra minha terra, pegar meus discos e subir para onde não deveria ter saído. Primeira coisa que farei quando lá chegar é comprar um Tonico & Tinoco, esticar meus pés sobre a cama, botar o disco na vitrola e pensar “É disso que eu estou falando, gente”. Depois de ligar para as melhores pessoas do mundo, buscar a garota no colégio, tomar várias cervejas com eles e ir dormir pensando ansiosamente em não fazer mais nada além disso. Estava pensando em matar os caras que escreveram “Fada, querida…”, mas acho que não vale muito a pena, ficar quieto é mais saudável.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Maio 22, 2008

Exigências

Sabe quando alguém te cumprimenta e você retribui falando: — Prazer em conhecer. Mesmo que seja uma das pessoas mais estúpidas do universo? Ou quando você vai entregar currículos em uma dessas lojas que você não tem a mínima vontade de trabalhar e tem que demonstrar aquele sorriso patético com uma cara de agrado e ser julgado bom o suficiente para trabalhar no recinto. Não é a corrupção, a alta do dólar, nem nada disso que me entristece. É a maldita hipocrisia, você se apresentar calmo, educado e passivo para ser aceito.

Era a primeira eucaristia. Ainda tinha um cabelo alto que eu odiava ter de penteá-lo, parecia muito aqueles meninos que soltam pipas no morro e achavam que seu estado físico está bacana demais para ser mudado. Minha mãe me levava todo sábado a tarde para um salão ao lado da igreja. Era um encontro dDoug Funniee jovens para a eucaristia que, segundo alguns, me levaria para o caminho do bem e seria um requisito para me casar. Tinha que ir de branco, e isso eu achava a maior das bobeiras, porque branco é porra da paz.

Andava todo o trajeto a caminho da igreja com um daqueles cadernos capa dura amarelos. Pensava sempre em como podiam vender algo tão horroroso. Tinham tantas cores legais. Tinha o roxo, o preto, o azul e o cinza, mas eles iam logo no amarelo mostarda. Os pais não vêem isso? Claro que não, eles já te forçaram a usar macacão, sunga de banho e cabelo escovinha. E a tendência é seguir no cabestro por muito tempo. Naquela época era assim, um burro de carga que carregava todas as vontades dos pais.

Chegava lá naquele prédio moderno e bacaninha, tinha um monte de cartazes com pombas, crucifixos, pães e uns santos desenhados. Frases de incentivos estampadas nas paredes, tais como: “Deus é vida”, “Jesus é alto astral” e todas essas bobeiras. Aos 10 anos eu já achava essas frases sem o mínimo de sentido. Se Jesus é alto astral, então por que me obrigava a vir para esse maldito encontro? E se Deus é vida, porque ele não é morte também? Não dizem por aí que ele escolhe a hora que você vai morrer, algo tipo “Deus quis assim”.

Perdi dois anos de minha vida indo nesses encontros. Aquelas crianças todas limpas e comportadas discutindo sobre o perigo das drogas, do álcool e do até do sexo. Aquele professor meio gordo, com um cabelo grisalho falava muito dos perigos do contato físico e tudo mais. Tinha um gogó grosso pra chuchu e se esbaldava de conversa fiada. Será que o maldito não tinha pênis e não se deleitava de prazer com sua mulher? O que eu sei é que não tem nada mais triste do que ter essas lembranças inúteis. Eu queria era não ter passado por essas imposições mentais, preferia aos sábados assistir o Doug Funnie e não ter visto nenhum padre em toda minha vida.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Maio 7, 2008

Ídolos

Acho que vou comprar um Marlboro vermelho para guardar no bolso esquerdo do meu blusão verde estilo caminhoneiro de carreta. Não fumo nem nada disso, mas gosto da idéia de tirar um cigarro do bolso. Quero oferecer ele para aquelas pessoas que ficam pelos corredores a procura de algum variante. Variantes divertidos como ficar observando o professor dar uma aula inútil sobre a história da TV e a ligação do rádio e política. Troco esses ensinamentos por livros, faz uns dois meses que não ando prestando atenção naquela barba do professor e sim em histórias de coelhos e luvas de beisebol.

Engraçado como eu consigo analisar as pessoas sem mesmo me importar se elas são aquilos ou não. Geralmente são bem estúpidas como penso. Querem saber de tudo e levantar o braço para discutir assuntos tão distantes de todos nós. Deve ser bom parecer saudável e bem conceituado. Ainda sim prefiro me manter distante. Ser informado é ser estúpido. Não de tudo, sabe. Mas saber da cotação do dólar e de investimento futuros. Por que diabos andar de terninho e querer sem um empreendedor? Interessante é o podre, o sujo e natural.

O ser humano tem dois destinos: ser um cretino rico ou um pobre estúpido. As coisas não se diferem entre isso. Estúpido por não ter sido rico e cretino por ter se tornado parte do meio. Eu gosto daquelas pessoas estranhas. O Seu Jorge que tinha uns óculos verdes pra lá de antigos e levava queijo de trança sempre que ia lá em casa. Minha mãe não gostava muito dele. Tudo bem que ele era gordo e fedido, mas ele tratava as crianças como gente e usava umas roupas xadrez. Morreu do nada, nunca mais comi queijo de trança.

Diferente de gente gorda normal. Aqueles que entram no ônibus e ficam com medo de que as pessoas achem que eles são gordos mesmo. Preferem ficar em pé a sentar porque as pessoas vão ficar olhando eles ocuparem os dois lados do banco. Seja gordo com prazer mesmo. Seu eu fosse gordo estaria pouco me fudendo e não usaria batas gigantes e nem salto alto pra querer ficar na moda. O Carmelindo era um outro personagem exemplar da simplicidade. Era zelador e também não cheirava nada bem, vivia mexendo no lixo do prédio. Mas ele não tinha vergonha de nada disso e falava por horas com qualquer um que topava no corredor. Era até bonito de se ver.

Esses tipos devem ser uns 0,3% da humanidade. Os outros 99,7% usam gel, gostam de Ferrari, bebem para ficar bêbados, escutam rock para se revoltarem, lêem para provar um certo intelectualismo e locam lançamentos. Quero fugir disso, ainda acho que quem levanta a mão na aula deveria ter a mesma decepada e quem não tem o que calçar deveria estar ali na frente me dando aula. Deixaria um livro para depois se pudesse ouvir eles falarem.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Abril 22, 2008

Corra Renan, corra

O Brasil é o tipo de merda que vai estar sempre presente na sua vida. Tenho todo aquele nacionalismo salvador, mas ainda sim acho que a cultura popular brasileira é uma mangueira que limpa toda a podridão desse país. Não falo das cidades, dos trabalhadores e nem das paisagens. Falo de todo esse pensamento tolo e dessas pequenas coisas como Faustão, garotinhas prancha-loira, maconheiros surfistas, carga horária e faculdade.

Posso estar generalizando em tudo, mas é justamente isso que quero fazer. Juntar toda essa podridão e cuspir fora daqui. Rebater uma fabulosa de uma bola de beisebol, fazendo um home run para o inferno. Mas pegar o taco e sair quebrando a cara de um por um não faria sentido algum. Acho melhor esquecer mesmo, ficar lembrando de outras coisas. De brincar no prédio do vizinho até a hora que sua mãe chega do trabalho e assa pão com queijo pra você.

Devia ser uma daquelas tardes de final de ano. Um sol dos diabos aquele dia. Sempre que voltava da escola perto do meio-dia o sol torrava suas costas pelo caminho todo até sua casa. Eu tinha o cabelo curto, a velha magreza e um sorriso na cara. Uma daquelas mochilas quadradas me perseguia com um peso quase insustentável pra minha idade. Mas era meu irmão mais velho que me buscava, conseguia que a levasse pra mim.

Tocava o sinal das 11:35 e lá vinha ele. Não parecia feliz, mas era obrigação buscar o mais novo na escola. Esse dia foi diferente. Não falou nada e me puxou. Andamos pela rua cinco e notei que havia algo desigual no seu rosto. Perguntei o que era e ele não tirava a mão da boca para me dizer. Foi quando por um descuido percebi um corte em formato de barraca na sua boca. Era um triângulo que abria e mostrava a carne pra fora.

— Raspei em um ferro, ele disse. Não era nada disso e eu sabia muito bem. Assustador aquilo. Guardou segredo até as seis da tarde, hora em que meus pais chegaram e o pressionaram até ele dizer que foi nosso pinscher preto magrelo que armou a barraca na sua boca. Engraçado que a tragédia não se restringiu somente a ele.

Enquanto meu irmão se contorcia de dor durante a tarde, lá estava eu brincando com meus bonecos de açãona casa do André, meu melhor amigo. Com uns 11 anos ele já tinha bigode e uma respeitável coleção de bonecos. Variava entre Johnny Quest, Comandos em Ação, Batman e Street Fighter. Nos ficavamos no jardim do prédio e usávamos as plantas e grama como território florestal.

Uma súbita vontade de cagar me bateu naquela hora. Faltavam uns quinze minutos para ir embora e eu não pensei em nenhum instante em abandonar a brincadeira. Brinquei, mas ainda sentia aquelas pontadas. Avisos de que algo pior estava por vir. Saí correndo e deixei os brinquedos por lá mesmo. Estava com uma daquelas bermudas de clube e nada por baixo. Cueca para mim era dispensável naquela época.

Cruzei a rua cinco em disparada, mas ali perto da academia senti uma coisa mole escorregar por entre minhas pernas. Era todo aquele cocô passando pela minha bermuda e sujando a calçada. O desespero de chegar em casa era tanto que nem lembrava quantos vezes aquilo saiu de mim. Fiquei conhecido como cagão por um bom tempo. Meu irmão teve que fazer plástica e eu aprendi a usar cuecas. Não tem jeito, no Brasil tudo acaba em merda.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Abril 10, 2008

Eu e as goiabas

As coisas sempre tendem a fracassar. Podem definir como caos, trauma ou uma catástrofe. Essa fase da minha vida é o grau mais acentuado de felicidade que estive. Podia cantarolar por aí que tenho ótimas companhias, tenho equipamentos e ânimo pra dar e vender. Mas futuramente não vai ser mais assim, tenho graves notícias, daquelas que chegam a te atormentar meses antes quando você está juntando moedas pra comprar um sorvete expresso.

Sorvete expresso. Desses que você lambe até chegar o fim e tem que comer a casquinha pra acompanhar até chegar à ponta e nada mais sobrar. É assim que tudo acontece, absorve o recheio e se alimenta com a mais devastadora gula, depois acaba assim do nada. Acontece com o fim-de-semana, o verão, as viagens, os aniversários e relacionamentos.

Poeira vermelha escaldante batendo nos meus olhos. Subia no vento como se fosse o inferno flamejante do sertão e aí parava. De cima da árvore daquela chácara comia os pedaços de goiaba observando se não estava madura demais para os vermes. Goiaba parece um cérebro, gostava mais de comê-la se fosse da branca. Lá de cima, sentava em um galho médio e conversava com meus amigos diversos. Era o filho do caseiro, o meu amigo da cidade ou até o irmão mais velho.

Achava que os arbustos e os assentos formados pelos galhos constituíam uma espaço-nave, daquelas com poltronas suficientes para todo mundo. Cansei de convidar os adultos para subir lá comigo. Eles sempre estão cansados de tudo. Sem saco para trabalhar, beber leite no curral, jogar cartas e até das férias. Desci de lá com meu irmão.

Fomos caminhando pelo pasto, tinha um boi daqueles enormes com um cupim nas costas. Meu irmão falava coisas sobre a bicicleta que eu tinha que pedir de aniversário e de como minha avó ficaria brava se nos atrasássemos para a merenda. Apressamos o passo e escapou minha chinela, meu pé firmou nas pedras e escorreguei. Um puxão no braço o torceu. A dor era insuportável e meu irmão não acreditou muito na minha cara.

Gritei tanto de dor que minha avó ouviu e questionou o que havia acontecido. Disse eu que foi na descida da árvore. Meu irmão confirmou a história, ela disse que se fosse mentira iríamos para o inferno e tudo mais. Sorte que ele me mostrou seu dedo cruzado bastante eficiente contra juramentos. Pensei um tempo depois em como o capeta é bobinho, ser enganado por um dedo. Meu irmão nunca mais quebrou nada em mim.

Estou torcendo os dedos para que as coisas continuem tão felizes. Mas acho que o diabo quer responder pelo atraso. Vou procurar uma dessas árvores bem altas, com galhos vigorosos e por lá ficar com todos meus amigos discutindo sobre nada e comendo goiaba, pode ser da vermelha.

 

 

 

Postado por: Renan Accioly Wamser | Março 24, 2008

Mato

Casa

Quando descia para o térreo de meu prédio, preparado para a diversão, com o sol na cara e minha camisa do Menino Maluquinho de regata, eu sabia que a vida me traria alegrias diversas. O meu Bidú de madeira, que não era azul, acompanhava minhas voltas ao redor do Edíficio Jarina, um daqueles triciclos genuínos. Não sabia quanto tempo aquilo durava, mas até hoje tenho em mente que nada poderia ser mais simples e tão completo.

Queremos casa, emprego, namorada e comida na mesa. Duplex, empreendedores, acéfalas e lasanha de queijo. Tudo isso que não vale nada. A felicidade não pode ser isso. Coisas minúsculas que te fazem rir e sentir alegremente hostil. Um caminhoneiro é feliz. Andar por aí com todos os possíveis destinos e conhecer pessoas simples que te fazem adorar a humanidade por um instante.

Tinha um peão da fazenda. Ele era alto e tinha uma barba grossa e acinzentada, andava com aqueles chapéus de pano, bem mais graciosos do que os de palha. Era um marrom quase verde. Verde musgo, eu acho. Andava sempre de lá pra cá. Ajudava no leite, arriava cavalos, capinava e tudo mais. Sempre olhava para aquele ser como se ele não pertencesse ao nosso mundo. Era muito simples para ser desse mundo. Camisas rasgadas e uma botina calejada pelo tempo e por milhares de bostas de vaca.

Era sempre perto das seis da tarde que ele chegava em casa e tirava aquela botina, sentado na varanda. Pegava o café com sua esposa e nós o víamos lá de cima da árvore. Estávamos comendo fruta e construindo a nossa casa da árvore que nunca deu certo. Naquele dia resolvi descer de lá e ir perguntar uma coisa que me encucava.

— Ei, senhor. Por que você é diferente? Por que mora aqui no mato longe de todo mundo e não é como a gente que mora na cidade com carro e casa?

— Ah, meu filho. Cada pessoa escolhe sua felicidade, a minha é estar aqui ao tardar do sol e beber um gole do café que minha esposa fez. Escutar os pássaros à noite, o mugir das vacas e o barulho mato.

        Achei aquilo uma besteira completa. Balancei a cabeça como se tivesse entendido tudo. Pensei que graça havia nas vacas e nos pássaros. Preferia a TV e meu videogame. Sentado aqui na frente de todos esses eletrônicos me lembrei daquele barulho do mato, das cigarras e do som do vento batendo em meio às árvores. Acho preciso de um chapéu de pano.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Março 10, 2008

Misericórdia

Briga

Pode ser que o bondoso deus esteja querendo brincar comigo. Ele quer tirar uma ondinha com a minha cara, eu não sou um cara infeliz. Já passei por momentos severos no meu curto caminho. Agora está tudo tão bom que nem sei como isso pode estar acontecendo. Talvez seja os bons fluídos que carreguei de Goiânia, mentira danada. Esse positivismo não existe, acho que é só a sorte mesmo. Eu não creio que rezar para o “Santo Padroeiro das Causas Impossíveis” vá lhe trazer diversão a base de cachaça e nem uma garota especial. Pra que saúde e felicidade se você não tem cerveja?

Acho que tudo começa aos 12 anos. Alí você pisa no mundo de verdade mesmo. Os desenhos que antes faziam sua felicidade são meros passatempos agora. Nem música era algo importante. Lembro-me muito bem de toda aquela arquitetura antiga do meu prédio. Naquela época ela já era velha, mas o corredor era pequeno o suficiente para brincar de cabra-cega e denominar o tal de Corredor da Morte. Naquele corredor eu morri várias vezes, mas morri de tanta diversão. Andávamos com os garotos mais velhos do prédio, isso incluía meu irmão, o Beto e o Danilo.

Meu irmão tinha o estereotipo do garoto infernal, meio pançudinho, cara enfezada e um instinto dominado pela crueldade, que variava entre os animais e seu irmão mais novo. O Danilo era como se fosse um descendente mais novo do meu irmão. Um aprendiz que trazia em si dois dentes gigantes, daí seu apelido de Mônica. O Beto cagado era o único negro da turma e isso não era perdoado pelos envolvidos. Não importa o nível de amizade entre qualquer amigo, sempre piadas raciais ou de físico vão existir. O sentido não é ofender, apenas tirar a bendita ondinha.

Botar fogo, estourar bombinhas, barulho e esportes sangrentos era a rotina desses. E quem estava ali junto, sempre próximo ao ponto de levar todas as cagadas e aprender o máximo do indispensável? O irmão mais novo, o cara que sofria, que tinha que ser o cobaia as experiências, era o magrelo do Renan. Eu que pulei de bicicleta em uma rampa de madeira e cai de saco no ferro pra testar a maldita. O mesmo que tentou explodir uma bombinha dentro da lixeira gigante e botou fogo na mesma antes de sair correndo.

Tinha o garoto vizinho, nome dele era Geraldo. Aqueles típicos garotos criados no carpete da vovó. Em um passado bem distante ele havia sido amigo do meu irmão, brincado por pouco tempo. Diz minha mãe que ele perdeu a espada de plástico lá em casa e depois contou pra mãe que meu irmão havia roubado. Meu irmão podia ser o diabo encarnado, mas roubar uma espada de 2 reais acho difícil. Só sei que o ódio entre as famílias era grande. A irmã dele chamava a gente de gentalha e morava no apartamento 206, logo ao lado do nosso: 205.

Um dia eu sabia que algo ia acontecer, algo radical o suficiente para devastar qualquer contato mais próximo. O Geraldinho estava de camisa cavada, meio bege. Andava malhando naquela época e passava sempre encarando nós que ficamos sentados na escada do segundo andar. Ele encarou, os três levantaram e sentado eu lá fiquei. Gritaram algum xingamento e ele entrou para dentro de casa com a promessa de voltar. Todos já tínhamos desistidos de que ele reaparecesse, e justamente no meio de uma conversa de ofensas, ele voltou. Eu só me lembro de três garotos socando aquele menino como nunca havia visto antes. Bateram de maneira tão severa, que eu preferia não olhar.

Acho que foi ali que me desassociei de qualquer contato mais intimo com meu irmão. Percebi que não era forte o suficiente para machucar alguém, não tinha a capacidade e nem o ódio para isso. Talvez por isso eu esteja em um caminho tão diferente e tenha conhecido pessoas importantes demais nessa vida. Pessoas que não tolerariam estar com um desses super-machões. Ás vezes sinto falta de bater em muitas pessoas, mas eu deixo para que nosso bondoso deus faça seu trabalho sujo.

*Nota: Meu deus é em minúsculo mesmo.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Fevereiro 28, 2008

Sweet home Goiânia

 Estrada

Férias costumam aparecer como aquele tempo em que você pretende dar a descansada de todo aquele ano que passou. Isso costuma acontecer com a maioria das pessoas. Querem acabar com todo aquele peso de trabalho ou dar uma aliviada de todo o inferno colegial. Passei todo o ano desejando voltar pra minha terra natal e reencontrar todas aquelas pessoas especiais. A diferença entre as minhas férias e da maioria da humanidade é que eu não tinha intenção de descansar, queria um ritmo frenético de acontecimentos, foi o que aconteceu. Não somente eventos variados, mas pessoas que realmente marcassem um momento da minha vida.

Dentro de todo esse rebuliço de gente e localidades novas, eu descobri pessoas especiais. Estava tão cansado de tudo e todos que encontrar algo assim fizeram todas as minhas esperanças voltarem. Toda essa coisa de encontrar uma pessoa semelhante a mim que entendesse cada palavra que você diz. E esse contato se tornou tão próximo em tão pouco tempo que as afinidades passaram a ter sentido físico. São aqueles ossos virtuosos e o cheiro do seu colar que combinam com minha magreza congênita e aquela música, que somente nós dois sabíamos, cantarolada em uma tarde na beira de uma avenida.

Talvez o sentido mais próximo de amizade que eu já tenha tido foi comprovado nesse intervalo de tempo. A vontade de largar tudo pelos cantos e ficar por aqui mesmo me veio a mente várias vezes. Eu não posso fazer isso, eu tenho meus compromissos ai no sul. Pessoas importantes existem por aí e elas fazem a diferença na minha vida. Estender esse tempo aqui foi o que eu pude fazer de melhor. Talvez seu eu fosse mais corajoso e abraçasse todas as desgraças e maravilhas do Centro-Oeste. Agradeço cada momento da minha vida por ter conhecido o motorista do belinão, o senhor soninho e a menina dos ossos. São eles que agora fazem minha vida melhor.

Postado por: Renan Accioly Wamser | Fevereiro 6, 2008

Patifaria

Bissexuais

Sabe quando aquelas estrelas de plásticos reluzentes grudadas na parede do seu quarto já não fazem mais sentido algum? Ou quando sua coberta preferida se torna uma coberta normal e perde todo o compromisso de lhe proteger pra sempre? Isso já deveria ter acontecido há algum tempo atrás, mas parece que foi ontem depois de ligar para umas duas pessoas e ir para uma festa caseira de aniversário, que as coisas fizeram ainda menos significado para mim.

 A obrigação de me socializar com as pessoas à minha volta tem me deixado embrulhado mentalmente, estou farto de me dirigir a locais com pessoas tão medíocres e estúpidas ao ponto de acharem que falar das suas ficadas e beijos demonstram seu caráter ou algo desse tipo. Mas a minha bondade está sempre ali, sempre pronta pra me fazer voltar a esses lugares e fingir dar atenção a essas mesmas pessoas.

 Tudo começa quando você quer exacerbar e demonstrar pro mundo que é um adolescente sagaz e que vai representar uma multidão de bastardos adolescentes revoltados. Comigo não foi assim porque eu nunca achei que as dificuldades que nós passávamos era algo a ser declarado e também não havia tempo para se pensar sobre isso. Eu tinha de ir pro Ateneu Dom Bosco estudar para honrar o sacrifício que meu pai fazia de tentar pagar esse colégio. Acho que os padres eram muito bondosos conosco, pois os atrasos de pagamentos e as dificuldades financeiras eram tamanhas que passávamos semestres devendo até o rabo.

 Quando se é menor, dá pra se perceber as coisas que realmente afligem a sua família e que causam brigas e todo tipo de coisa. No caso da minha, o dinheiro era o maldito filha da mãe. Minhas amizades naquela época não beiravam a auto-destruição, nós só queríamos andar de bicicleta e ficar no computador jogando coisas absurdas. Começamos a gostar do rock n´roll naquela época, e aquilo era a música que fazia o maior sentido para todos, era como se tivessem nos proibido de ouvir e falar por tanto tempo que agora aquilo falava por nós mesmos.

 Nunca fomos a festivais de rock, não usávamos camisas de bandas, não queríamos nos juntar ao “underground” e nem nos interessávamos por usar all-star e pertencer a porra de grupo nenhum. Todas essas coisas parece ser obrigação do jovem. Pertencer a um bando, ter amigos populares e ser reconhecido por alguma coisa que faça. Andei vendo garotas de 14 anos se oferecendo como uma vadia qualquer, provando pra si e para os outros que ela não sabe nada do que faz, mas tem sempre alguém fazendo nela. Eu estou beirando os 20 anos e só agora percebi a tamanha poça de lama que andei pisando. É bem mais fácil você se esconder atrás de roupa preta, bandas e amiguinhos do que enfrentar a realidade de se sacrificar diariamente e pagar um colégio pro seu filho.

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