Publicado por: Renan Accioly Wamser | outubro 10, 2008

Retrato da Ausência

É quando se chega aos doze anos de idade que as coisas começam a fazer sentido. Você começa a entender porque fica amedrontado ao chegar perto de certa garota, entende que passar a tarde jogando videogame ou brincando nem é tão legal assim e que o estudo vai atrapalhar sua vida por um longo tempo. Foi também nessa época que eu percebi que era um garoto com menos dinheiro que meus amiguinhos e que as coisas lá em casa não iam muito bem.

Morávamos em um prédio no centro da cidade, na mesma rua onde acontecem os desfiles de sete de setembro e onde os pivetes descem ponto por ponto roubando as bolsas de dezenas de mulheres nos fins de semana. Muito movimento, é ônibus pra tudo quanto é lado. Era cinco pessoas em nosso apartamento, considerando a Fera, nosso cachorro neurótico. O apartamento veio de herança do meu avô que nem cheguei a conhecer, minha mãe diz que ele morreu com cinqüenta anos de ataque cardíaco e naquela época não havia muito que se fazer nesses casos.

Nosso apartamento era bem simples, a decoração era muito antiga, aqueles ladrilhos azulados na cozinha e o chão cheio de tacos soltos. Apesar do pouco luxo, sempre vivi bem e não me lembro de nada que me traumatizasse. Só que eram tempos difíceis, meu pai trabalhava como um condenado tentando vender imóveis a todo custo. Minha mãe batia cartão em uma loja de brinquedos embaixo do prédio. Há quem pense que eu era um garoto de sorte por isso, mas era uma loja de brinquedos pedagógicos e não havia muita diversão por lá.

A gente sempre passou por problemas financeiros, lembro que o colégio particular em que eu e meu irmão estudávamos estava sempre atrasado, mas ainda sim estudamos no Ateneu Dom Bosco por um bom tempo. Por se tratar de um colégio de padres, achei que Deus poderia fazer um milagre perdoando nossas dívidas, mas depois chegou uma notificação dizendo que meu pai estava sendo processado e que teria que pagar tudo aquilo em suaves prestações. Lá em casa a geladeira estava sempre cheia de litros de água, acho que mamãe tentava esconder a ausência de comida com garrafas pet.

À medida que o tempo ia passando as coisas foram se agravando, as discussões eram cada vez mais freqüentes e aquilo pra nós filhos tinha se tornado algo habitual. Até que em uma noite de meio de semana, Barão, meu pai, chegou meio alcoolizado em casa e começou a discussão. Lembro que passava Matrix na TV e a pancadaria rolava solta, não somente no filme, mas na cozinha também. Eles nunca haviam se agredido fisicamente e aquela seria a primeira e última vez que veria aquilo acontecer.

Meus pais se divorciaram, meu irmão continuou morando na mesma casa com a dona Lucimara, o cachorro morreu de desgosto e eu me mudei pra Balneário Camboriú com meu pai. Hoje moramos de frente para o mar, temos uma televisão de 40 polegadas e meu pai tem muitas mulheres. Mesmo com tudo isso, ainda sinto falta de cada minuto que passei com aquela família. E se pudesse trocaria todas essas coisas por um fim de semana daqueles em que íamos para a chácara como uma simples família suburbana.

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Responses

  1. Todas as famílias devem ter problemas similares, a identificaçao que senti quando li seu texto foi imensa. Eu queria tanto ter dado mais valor; lembro que já tive uma casa luxouosa com piscina mas que a minha maior diversao por lá era arrancar as plantas para fazer comidinha…

    Ah, eu vou viver de lembranças, a minha vida é forte demais, quase nao consigo controlar tudo que sinto. E sempre segue, sempre.

  2. Acho que a nossa geração foi “amaldiçoada”. A maioria fácil dos meus amigos/colegas tem pais separados, passaram por dificuldades e, de alguma maneira, hoje, sentem saudades. Eu, inclusive!

  3. Cara, isto me comoveu…Vem à tona uns sentimentos que se a gente cultivar acaba nem tocando a vida feliz…rsrs…O negócio e reeinventar a vida que temos agora…Mas todo mundo tem lembranças melancólicas e felizes da infância…

  4. Eu ainda acho que as pessoas precisam passar por dificuldades e por certos desmazelos para aprender a valorizar as coisas que tem realmente importância. Quanto mais fodido você se torna, mais você sabe das coisas.

  5. Continuando a sua reflexão. Também sou a favor que as pessoas tem que passar por um pouco de valor para as coisas. Eu tive problemas similares e talvez piores que os seus e uma parte da pessoa que hoje eu sou, se deve a esses probleminhas.

  6. só pra constar que garrafas pet não se escreve pet, é PET! ahahahahaha
    só podia ser a laura…

  7. O ser humano é assim, mesmo: ou aprende pela dor ou aprende pelo amor. Incrível como eu ia lendo o seu texto e muita coisa se encaixava.

    A última porrada que levei foi há pouco tempo e ainda estou meio desconsertado. A única coisa que me resta é o aprendizado.

    Renan, faz muito tempo que não nos falamos, mas desejo tudo de bom pra você. Agora que descobri o seu blog vou passar por aqui mais vezes.

    Abraço, Luís Guilherme, seu ex-colega de faculdade.

  8. Forte.


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