Publicado por: Renan Accioly Wamser | agosto 27, 2008

Diálogo

Abre os olhos cansado de sentir aquele prego roçando suas costas naquele duro sofá vermelho. Olha em sua volta e percebe que está tudo em ordem, menos o seu corpo. Vai ao espelho e percebe toda a imundície que percorre seu rosto. São aquelas rugas misturadas com uma pele tão oleosa que chega a manchar um pedaço do papel higiênico. Escuta a campainha.

– Cara, eu briguei com a Julia.

– Éééé?

– Velho, não sei mais o que fazer pra controlar aquela mulher.

– Quando não se consegue domá-las você precisa fugir delas.

– Eu não quero fugir dela, porra. Eu amo ela.

– Não, cara. Você ama outras coisas mais do que ela. Agora cala a maldita boca de menino chorão e pega as últimas duas cervejas que estão lá na geladeira.

– Oookay.

Procurou na roupa um ponto específico de tecido que ainda não havia sido rasgado pelas tampas ao abrir suas cervejas. Com mais dois pequenos buracos agora eram dezoito em toda a camiseta. Parecia um soldado alvejado de balas, soldado esse que não conseguia enfrentar uma simples batalha com uma garota.

– Conte-me o que aconteceu, cara.

– Aquelas coisas de sempre, sabe?

– Não sei. Eu ainda estou livre delas por um tempo. Uma hora a gente para de querer andar por aí atrás do perfume delas e imaginar como seria vê-las repousando em nosso colo.

– Ah! Ela me falou que eu não faço nada o tempo todo e que não agüenta mais ter de enfrentar toda a coisa sozinha.

– Acho que a posição de vagabundo é um privilégio e as pessoas não entendem isso. Eu nunca passei mais de um mês e um mesmo trabalho e hoje vivo aqui nesse condôminio de 25 andares com toda essa merda de prostitutas, safados, bêbados e outros vagabundos como eu. Eu sou feliz.

– Não estou falando disso, cara. Você não entende.

– Não entendo mesmo. Só sei que uma cerveja me faria feliz neste momento. Sabe, a gente não precisa tanto delas assim. Gosto mais de estar andando de mãos dadas de vez em quando do que ficar naquela meteção toda e cuidando da merda do café da manhã pra elas não se sentirem mal depois de tudo.

– Eu tenho dinheiro, vamos comprar mais umas cervejas. Hoje o dia não é feliz.

– É ai que você se engana. Seus critérios de felicidade não valem nada, mas gostei da idéia da cerveja. A cerveja é a felicidade. A gente pode trocar uma mulher por uma garrafa. Ela tem boca, mas não fala. Você usa e joga fora. E se for um desses safados loucos por meter em alguém, enfia seu negócio lá e seja feliz.

Desceram os 25 andares naquele elevador. Foram três paradas nos mais diversos andares e as pessoas escrotas passaram por ali ao lado deles com aquele cumprimento social pouco satisfatório. Era um dia cinza e os bares estavam mais sujos do que nunca, era o ideal. Puxaram uma mesa de canto, olharam pro garçom e a felicidade se aproximou.

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Responses

  1. Porra, eu nao sei fazer diálogos. Só sei escrever merdas sem sentido e sem talento.

    Vamos beber aquela cerveja vagabunda quando eu beber.

  2. Aquela Skol, boca grande. Talvez dê pra meter nela.
    Veja que a cerveja é um objeto sexual versátil: tem um buraco tentador, ao mesmo tempo que é fálica.

    Hahaha.
    Mas ainda prefiro as mulheres à cerveja.
    Ou mulheres e cerveja.
    Companhias.

  3. ´a gente pode trocar uma mulher por uma garrafa. Ela tem boca, mas não fala. Você usa e joga fora. E se for um desses safados loucos por meter em alguém, enfia seu negócio lá e seja feliz.´

    Gostei disso. Belo diálogo.


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