Publicado por: Renan Accioly Wamser | novembro 23, 2008

Tudo sobre minha mãe

— Que merda! Será que vou ter que fazer um convite especial pra você sair dessa porra desse computador e vir comer?

 

Posso ouvir os berros vindos da cozinha ecoando pelo vasto corredor do nosso velho apartamento. Os tacos de madeira que compunham o chão da casa já não brilhavam mais e era difícil achar algum que não estivesse solto. Era uma casa grande, com enfeites em todo lado. Tinha aqueles bibelôs de animaizinhos e um monte de quadro-tapete, herança de vovó. Lembro-me bem da Monalisa gigante que ficava na sala observando cada um que passasse por lá. Não saberia dizer quantas vezes deixei de ir à cozinha beber água pra não topar com ela.

 

Eu e meu irmão dividíamos o mesmo quarto, isso nunca foi um problema pra mim. Ao contrário, achava bem interessante. Não gostava de dormir sozinho e tinha medo de todos esses mitos infantis. Mas a situação se tornou desesperadora quando entrou a moda de filmes de suspense estilo Pânico e eu não conseguia dormir, esperando o telefone tocar a qualquer momento e ouvir: “Hello, Renan. What´s your favorite terror movie?”. Meu pai rezava comigo antes de dormir e cheguei a passar a noite no tapete ao lado da cama de meus pais para estampar qualquer tipo de ameaça.

 

Todos esses medos passaram, mas eles tiveram que acontecer para provar que fracote cada um pode se tornar. E se tem algo que me fortificou nessa infância foram os gritos de mamãe. Costumávamos estudar na mesa da cozinha e a gritaria rolava solta se eu não conseguisse identificar o numerador do denominador e esquecer o Baskara nas equações de segundo grau. Chorei demais naquela época, mas depois que passei a ser independente nos estudos sinto falta de cada palavrão exprimido em acessos de fúria sem sentido. Se hoje eu não deixo de estudar para alguma prova é exclusivamente por isso.

 

Existe uma coisa nesse mundo que nunca vou esquecer é de quando mamãe pegou cinco reais na sua bolsinha de zíper, de um dinheiro que não podia gastar, e falou:

—Toma,meu filho. Vai lá e compra a sua catuaba.

Não é questão de ser álcool, nem muito menos de incentivo, mas de confiança. É você saber que existe alguém te entende totalmente e sempre estará ao seu lado. Pode ser dando dinheiro para meu álcool, chamando meu amigo vegetariano de bocó, ou falando do horóscopo chinês da minha garota. Dia 01º de dezembro não é o Dia Internacional da Mulher nem nada assim, mas vai ser o dia em que abrirei a porta da minha velha casa e abraçarei aquela mulher como se fosse a última coisa que fizesse na vida.

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Responses

  1. abraçar quem se ama e quem te entende melhor do que ninguém é a melhor coisa do mundo. aproveite.

  2. é engraçado como várias peculiaridades da nossa infância, adolescência e atual-fase-de-ser assemelham-se!
    a diferença é que minha mãe já parte para as “coisas pesadas”.. e você sabe do que estou falando!

    oh! god! eu queria que essa goiânia fosse perto de são bento… vou sentir falta de tomar porres homéricos com cachaça de nível estudantil, na sua presença!

  3. Faça isso cara! O instinto mãe revelam coisas a longo prazo, um dia vc se depara com um situação e percebe que um atitude chata delas hoje faz um sentido tremendo, sorte meu irmão. Nunca deixe de abraçar!

  4. Saudações

    Raramente comento em blogs que não são de tecnologia mas no teu caso abrirei uma excessão, seu texto é muito bom .

    Parecia que estava lendo algum conto ou coisa do tipo.

    Se você usa seu blog para expor seus sentimentos angustias emfim como uma válvula de escape esta fazendo um bom trabalho.

  5. Que postagem bonita.

  6. é companheiro, muitas vezes os nossos queridos pais, não sabiam expressar seus sentimentos mas temos certeza que cumpriram sua missão e gravaram em nossos corações as mais belas lições de amor.

  7. Jamais imaginaria na minha vida que este homem de hoje, menino de ontem, pudese descrever de maneira mais intensa os seus sentimentos, especialmente dos detalhes do teu apartamento, dos detalhes da tua mae, e teu pai, ví você nascer, crescer nem tanto, mais hoje vejo o HOMEM feito. PARABÉNS… me sinto orgulhoso de você.


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