Publicado por: Renan Accioly Wamser | julho 15, 2008

Amargura

       No lado leste do sertão de Minas Gerais, região pobre e desertificada pela extração do algodão, havia uma cidade chamada Quixim dos Baratinas. Era nesse pequeno vilarejo, descendo dois quilomêtros morro abaixo que morava o garoto Sillas. Em uma casa de grande varanda e um jardim extenso dos mais diversos tipos de plantas, em sua maioria já secas. Uma casa de inúmeros cômodos e janelas quadriculadas, diziam que era da época do escravismo, a casa dos peões. Vivia sua mãe, sua irmã mais nova e o Seu Zezo, o pai, além do cão Chumbinho.

Sillas sempre gostou de morar por ali, achava que o resto do mundo, que ele assistia a noite na pequena TV parabólica, era de uma bobagem incompreensível. Devido ao que as pessoas eram capazes de fazer com as outras, Sillas nunca pretendeu sair de sua terra e nem se desvencilhar da sua família. Passava os dias ajudando os pais com as tarefas da fazenda, passeando a margem do pequeno riacho que desembocava ali perto e andando a cavalo na imensidão daquele sertão generoso.

Ao longo de uns 70 metros da casa havia um declive de terra que acabava por esconder uma extensão do lago. Era como se fosse uma grande caverna, não tampada por rochas, mas por centenas de grandes árvores, algo totalmente distinto da vegetação do local. Era lá que o garoto mais gostava de ficar, entre aquela imensidão de sombras. Com restante de tábuas da reforma do curral e acima da maior das árvores construiu uma casa. Era perfeita, com escada, janela e até um grosso cipó para saídas mais apressadas. Ficava lá até o sol descer e tornar vermelho todo o horizonte, quando sua mãe gritava lá do meio do caminho. Era hora do jantar.

Fora avisado que no dia seguinte o tio Eustácio, da capital, chegaria para passar uns dias com seu irmão, o pai de Sillas. Nunca foi muito com a cara do tio, aparentava ser rude. Tinha uma barba grossa que tampava as marcas do seu rosto, que não eram poucas. Pôs-se a dormir até que no raiar do sol seu pai lhe acordou para que o ajudasse a apartar as vacas e tirasse leite de alguma delas para ajudar no sustento da fazenda. Quando voltou do curral, lá pelas dez da manhã seu tio já estava lá no alpendre do casarão segurando um pedaço de cana-de-açúcar e proseando com a mãe de Sillas.

Trocou um cumprimento com o tio e estranhou o quanto foi simpático, chegando até a lhe perguntar sobre namoradinhas e dar um leve tapinha em suas costas. Tamanho afeto nunca havia acontecido entre os dois, nem sequer conversavam. A mãe de Sillas lhe perguntou se poderia cortar a cana para seu tio, já que sempre carregava um belo de um canivete em sua bainha. Sillas cortou e passou os pedaços para sua mãe, quando foi pressionado a dar uma volta com seu tio para mostrar a fazenda, lugar esse que ele já conhecia de cor.

Ao passar pelo curral e a represa da fazenda, seu tio já havia lhe falado diversas afirmações sobre morar na capital e como a vida aqui era mais sossegada. Deslocou sua mão no ombro do pequeno garoto e continuou caminhando. Depararam com o refúgio de Sillas e o garoto temeu em lhe mostrar onde passava a melhor das suas horas. Mas ao ver a casa na árvore seu tio teimou em querer subir e ver tudo de perto. O rabo gordo de Eustácio subiu aquela escada fazendo estalar cada milímetro da madeira.

Seu tio resolveu sentar no toco que servia de poltrona e vir a falar de como estava bem feita, o garoto só se desviava das perguntas, cada vez mais freqüentes. Então Eustácio se levantou calmamente e falou que iria agradecer ao menino pela volta e iria lhe dar um presente. Desarrochou o sinto e puxou as calças para baixo. Com apenas 13 anos, Sillas nem sabia o que havia de acontecer ali. Só conseguia se lembrar de algo que havia visto na TV um dia. Algo sobre um homem que havia abusado de crianças.

Como que num reflexo Sillas empurrou Eustácio. O velho teimou em se aproximar e puxar os ombros do menino em direção a sua cueca. A cara do velho era desgostosa, havia um sorriso na sua cara misturado com uma malicia e a insatisfação de não estar conseguindo o que queria. Sillas descontrolado tentava escapar, mas o velho havia bloqueado a passagem de saída. Lembrou da cana-de-açúcar, da sua família e do canivete.

Puxou o canivete e sentiu uma boa sensação. Mirou no estorvo que o velho almejava e atingiu a virilha, foi rasgando a extensão da coxa até a marca da cirurgia de apêndice. Vazava sangue para todos os lados, o velho sentia a fúria e desgosto de ser um safado. Sillas ensopado de sangue agia como um animal atacando a preza. Estocou-lhe mais três furos na barriga e chutou o velho lá de cima. Aquele monte de banha caiu como um trambolho ao chão e lá ficou esparramado enquanto o sangue descia rio abaixo.

Sillas agora estava livre, pensou em tudo que tinha acontecido, mas sem pensar nas conseqüências. Agiu de forma espontânea. Levantou, olhou para si mesmo e para o velho, sentiu o ódio tremendo em seus dedos, arremesou o canivete longe. Ouviu sua irmã lhe chamar e se assustou. Pensou no que pensariam dele depois disso e por que o velho havia tentado tal coisa. Puxou o cipó a sua frente, enrolou no seu pescoço e de lá pulou, como se fosse um salto para liberdade apenas ouviu-se o estalar do seu pescoço.

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Responses

  1. essa história daria um belo de um livro.
    apavorou, mano brown!

  2. abriremos um negócio:

    você escreve os livros e eu faço as capas no paint.
    ficaremos ricos!

  3. Eu adoro contos. Rubem Braga, um cabra-homem que eu recomendo a leitura, sabe escreve-los como ninguem.

    Eu odeio velhos safados.

    Saudades demais.

  4. Orra cara, ficou ficou ficou … de se orgulhar!

    Gostei do Sillas, ele foi ligero e cabra macho.


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