Publicado por: Renan Accioly Wamser | setembro 1, 2008

O Fio da Alma (Parte I)

Desde o primeiro dia que Jonas Junior botou o misero dedo do pé pra fora da barriga da sua mãe, seu cabelo, que quase não existia, o incomodou. Foram passando os anos, e o bebê que antes abria o berreiro quando alguém encostava nos seus fios de cabelo , cresceu e se tornou um garoto díspar. Não era a aparência que o tornava diferente, de longe um garoto normal com sardas e olhos verdes e aquela constante falta de músculos.

Jonas tinha um problema que levaria para o resto de sua vida. Não se sabe o que ocasionou isso, se foi hereditário ou um problema genético. Mas uma coisa era certa: Não deixar ninguém tocar e nem se aproximar do seu cabelo. Se ele achasse que existia uma missão nesse mundo para cada um de nós, a missão de Jonas era essa. Era uma força mais forte que ele, que transformava alguns bons momentos em momentos de fúria.

Antigamente se achava que Junior era um doente e as crianças do bairro tinham medo de ficar ao seu lado ou até de conversarem com ele, fazendo com que ficasse por fora do colégio por dois anos até confirmarem a não-doença. Talvez tenha sido o período mais feliz da vida daquele garoto, vivia em casa solitário e não tinha amigos, mas o que perdia lá fora ganhava em sua casa. Dona Lúcia, era mãe, amiga e conselheira sobre os mais diversos assuntos do mundo. Sabe quando se questiona alguém sobre alguma coisa e a pessoa responde : Não sei, porque é assim. Lúcia nunca usou essas palavras.

Jonas gostava de ler contos infantis que tinham crianças e casas na árvore, comprar picolés de groselha e sugar o a essência até ele ficar somente gelo, ir ao cinema sozinho e de observar as garotas que iam ao salão de beleza que ficava embaixo da sacada do seu apartamento. No tempo que esteve aprisionado em casa, o garotinho se apoiava em cadeiras para observar as meninas. Dos quatro aos quinze anos manteve aquele mesmo processo, só que todas as garotas que já tinham passado por ali ficaram no desgosto, ele não gostava de maquiagem, de chapinha e de nada que escondesse a beleza natural das meninas. Só achava a depilação necessária.

Era hora de ir para o colégio, beirava as 06:00 da manhã e era o oitavo ano. A primeira coisa que vinha na cabeça do agora jovem J.J era ter de enfrentar. Enfrentar o vento que sopraria seu cabelo para trás como uma turbina de avião durante o trajeto até a escola, enfrentar o porteiro brincando com seu cabelo e as centenas de jovens garotos que o olhavam atravessado como se fosse um animal que se defendia ao encostarem em seu pêlo. Podia cortar o cabelo como fosse: rapado, comprido, estilo asa-delta e até vassourinha. Não adiantava, era sempre a mesma coisa, aquela fissura em não movimentar um fio e desprazer de sentir ódio em cada instante que seu cabelo saía do lugar.

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