Publicado por: Renan Accioly Wamser | abril 22, 2008

Corra Renan, corra

O Brasil é o tipo de merda que vai estar sempre presente na sua vida. Tenho todo aquele nacionalismo salvador, mas ainda sim acho que a cultura popular brasileira é uma mangueira que limpa toda a podridão desse país. Não falo das cidades, dos trabalhadores e nem das paisagens. Falo de todo esse pensamento tolo e dessas pequenas coisas como Faustão, garotinhas prancha-loira, maconheiros surfistas, carga horária e faculdade.

Posso estar generalizando em tudo, mas é justamente isso que quero fazer. Juntar toda essa podridão e cuspir fora daqui. Rebater uma fabulosa de uma bola de beisebol, fazendo um home run para o inferno. Mas pegar o taco e sair quebrando a cara de um por um não faria sentido algum. Acho melhor esquecer mesmo, ficar lembrando de outras coisas. De brincar no prédio do vizinho até a hora que sua mãe chega do trabalho e assa pão com queijo pra você.

Devia ser uma daquelas tardes de final de ano. Um sol dos diabos aquele dia. Sempre que voltava da escola perto do meio-dia o sol torrava suas costas pelo caminho todo até sua casa. Eu tinha o cabelo curto, a velha magreza e um sorriso na cara. Uma daquelas mochilas quadradas me perseguia com um peso quase insustentável pra minha idade. Mas era meu irmão mais velho que me buscava, conseguia que a levasse pra mim.

Tocava o sinal das 11:35 e lá vinha ele. Não parecia feliz, mas era obrigação buscar o mais novo na escola. Esse dia foi diferente. Não falou nada e me puxou. Andamos pela rua cinco e notei que havia algo desigual no seu rosto. Perguntei o que era e ele não tirava a mão da boca para me dizer. Foi quando por um descuido percebi um corte em formato de barraca na sua boca. Era um triângulo que abria e mostrava a carne pra fora.

— Raspei em um ferro, ele disse. Não era nada disso e eu sabia muito bem. Assustador aquilo. Guardou segredo até as seis da tarde, hora em que meus pais chegaram e o pressionaram até ele dizer que foi nosso pinscher preto magrelo que armou a barraca na sua boca. Engraçado que a tragédia não se restringiu somente a ele.

Enquanto meu irmão se contorcia de dor durante a tarde, lá estava eu brincando com meus bonecos de açãona casa do André, meu melhor amigo. Com uns 11 anos ele já tinha bigode e uma respeitável coleção de bonecos. Variava entre Johnny Quest, Comandos em Ação, Batman e Street Fighter. Nos ficavamos no jardim do prédio e usávamos as plantas e grama como território florestal.

Uma súbita vontade de cagar me bateu naquela hora. Faltavam uns quinze minutos para ir embora e eu não pensei em nenhum instante em abandonar a brincadeira. Brinquei, mas ainda sentia aquelas pontadas. Avisos de que algo pior estava por vir. Saí correndo e deixei os brinquedos por lá mesmo. Estava com uma daquelas bermudas de clube e nada por baixo. Cueca para mim era dispensável naquela época.

Cruzei a rua cinco em disparada, mas ali perto da academia senti uma coisa mole escorregar por entre minhas pernas. Era todo aquele cocô passando pela minha bermuda e sujando a calçada. O desespero de chegar em casa era tanto que nem lembrava quantos vezes aquilo saiu de mim. Fiquei conhecido como cagão por um bom tempo. Meu irmão teve que fazer plástica e eu aprendi a usar cuecas. Não tem jeito, no Brasil tudo acaba em merda.

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Responses

  1. Ainda estou pensando naquela bomba atômica.

  2. Sensacional.

  3. Ah, essa eu conhecia… e foi segurando o shorts pra merda não cair.

    Mas esse negócio de “o pincher armou a barraca na boca do meu irmão” ficou estranho ein.

    Beijos pra ti

  4. nójento…..!!!

    a proposito…. concordo com a ruca. que zoofilia é essa, porra?!!

  5. Faltou a parte que o fera da ótica te chamou de cagão.

    Eu já dei risada dessa porra viu bixo..

  6. Por sinal… o nome da cachorra era Fera.
    :s


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