Publicado por: Renan Accioly Wamser | março 24, 2008

Mato

Casa

Quando descia para o térreo de meu prédio, preparado para a diversão, com o sol na cara e minha camisa do Menino Maluquinho de regata, eu sabia que a vida me traria alegrias diversas. O meu Bidú de madeira, que não era azul, acompanhava minhas voltas ao redor do Edíficio Jarina, um daqueles triciclos genuínos. Não sabia quanto tempo aquilo durava, mas até hoje tenho em mente que nada poderia ser mais simples e tão completo.

Queremos casa, emprego, namorada e comida na mesa. Duplex, empreendedores, acéfalas e lasanha de queijo. Tudo isso que não vale nada. A felicidade não pode ser isso. Coisas minúsculas que te fazem rir e sentir alegremente hostil. Um caminhoneiro é feliz. Andar por aí com todos os possíveis destinos e conhecer pessoas simples que te fazem adorar a humanidade por um instante.

Tinha um peão da fazenda. Ele era alto e tinha uma barba grossa e acinzentada, andava com aqueles chapéus de pano, bem mais graciosos do que os de palha. Era um marrom quase verde. Verde musgo, eu acho. Andava sempre de lá pra cá. Ajudava no leite, arriava cavalos, capinava e tudo mais. Sempre olhava para aquele ser como se ele não pertencesse ao nosso mundo. Era muito simples para ser desse mundo. Camisas rasgadas e uma botina calejada pelo tempo e por milhares de bostas de vaca.

Era sempre perto das seis da tarde que ele chegava em casa e tirava aquela botina, sentado na varanda. Pegava o café com sua esposa e nós o víamos lá de cima da árvore. Estávamos comendo fruta e construindo a nossa casa da árvore que nunca deu certo. Naquele dia resolvi descer de lá e ir perguntar uma coisa que me encucava.

— Ei, senhor. Por que você é diferente? Por que mora aqui no mato longe de todo mundo e não é como a gente que mora na cidade com carro e casa?

— Ah, meu filho. Cada pessoa escolhe sua felicidade, a minha é estar aqui ao tardar do sol e beber um gole do café que minha esposa fez. Escutar os pássaros à noite, o mugir das vacas e o barulho mato.

        Achei aquilo uma besteira completa. Balancei a cabeça como se tivesse entendido tudo. Pensei que graça havia nas vacas e nos pássaros. Preferia a TV e meu videogame. Sentado aqui na frente de todos esses eletrônicos me lembrei daquele barulho do mato, das cigarras e do som do vento batendo em meio às árvores. Acho preciso de um chapéu de pano.

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Responses

  1. ”Cada pessoa escolhe sua felicidade”

    e é assim mesmo, renan. é assim mesmo.

  2. ei, tentei te ligar hj mas não consegui. enfim, tem duas fitas suas aqui, uma com capinha e tudo, outra sem nem o adesivo que identifica o jogo. devolverei assim que possível.

    minha felicidade se resume a minha sacada, com alguma fonte de cafeína e meus amantes literários (reatei meu namoro com sartre, tá um luxo a relação).

    btw: este é meu texto favorito até agora

    :*

  3. Meu avô era um cara do campo que nem esse. Parece que vivem mais e melhor que agente.
    Estamos sempre em busca da felicidade, a minha procura ta retratada no segundo parágrafo.

    Cara, eu tava bebão esses dias, passando em frente a um sebo lebrei do ´velho safado´, era um sebo meio hipão, perguntei se tinha algum do Bukowski mas não tinha ”/
    Nisso o cara começo a fala ´tem um conto muito bacana dele…´, mas eu fico meio surdo bebado e não consigui entende muito bem sobre o tal conto.

    aaaa, e eu tambem nunca terminei a minha casa na arvore
    até.

  4. Nunca tive casa na árvore.
    Infelizmente, (ou felizmente), trabalho, estudo e vivo minha vida sem perder os bons momentos. Nem precisa dizer o quanto foi engraçado ontem nós dois rindo feito dois idiotas pq tínhamos comprado uma pizza com a marca “Don Antônio”
    Esses momentos eu nunca perderei. Pode ter certeza.

  5. “beber um gole do café que minha esposa fez”

    Pequenos momentos.

    Morro de saudade.

  6. quer mato?! va pra sao bento… minha casa na arvore ainda existe, se quiser, eu deixo voce se hospedar la!!!

  7. Pequenos momentos constróem uma felicidade completa. É na simplicidade que estão as boas coisas da vida. Um dia, todos nós sentiremos saudades de tempos que sequer vivemos. Apenas para desejar o cheiro de terra molhada, o mato coberto de orvalho e som das cigarras por todos os lados.


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