Publicado por: Renan Accioly Wamser | março 10, 2008

Misericórdia

Briga

Pode ser que o bondoso deus esteja querendo brincar comigo. Ele quer tirar uma ondinha com a minha cara, eu não sou um cara infeliz. Já passei por momentos severos no meu curto caminho. Agora está tudo tão bom que nem sei como isso pode estar acontecendo. Talvez seja os bons fluídos que carreguei de Goiânia, mentira danada. Esse positivismo não existe, acho que é só a sorte mesmo. Eu não creio que rezar para o “Santo Padroeiro das Causas Impossíveis” vá lhe trazer diversão a base de cachaça e nem uma garota especial. Pra que saúde e felicidade se você não tem cerveja?

Acho que tudo começa aos 12 anos. Alí você pisa no mundo de verdade mesmo. Os desenhos que antes faziam sua felicidade são meros passatempos agora. Nem música era algo importante. Lembro-me muito bem de toda aquela arquitetura antiga do meu prédio. Naquela época ela já era velha, mas o corredor era pequeno o suficiente para brincar de cabra-cega e denominar o tal de Corredor da Morte. Naquele corredor eu morri várias vezes, mas morri de tanta diversão. Andávamos com os garotos mais velhos do prédio, isso incluía meu irmão, o Beto e o Danilo.

Meu irmão tinha o estereotipo do garoto infernal, meio pançudinho, cara enfezada e um instinto dominado pela crueldade, que variava entre os animais e seu irmão mais novo. O Danilo era como se fosse um descendente mais novo do meu irmão. Um aprendiz que trazia em si dois dentes gigantes, daí seu apelido de Mônica. O Beto cagado era o único negro da turma e isso não era perdoado pelos envolvidos. Não importa o nível de amizade entre qualquer amigo, sempre piadas raciais ou de físico vão existir. O sentido não é ofender, apenas tirar a bendita ondinha.

Botar fogo, estourar bombinhas, barulho e esportes sangrentos era a rotina desses. E quem estava ali junto, sempre próximo ao ponto de levar todas as cagadas e aprender o máximo do indispensável? O irmão mais novo, o cara que sofria, que tinha que ser o cobaia as experiências, era o magrelo do Renan. Eu que pulei de bicicleta em uma rampa de madeira e cai de saco no ferro pra testar a maldita. O mesmo que tentou explodir uma bombinha dentro da lixeira gigante e botou fogo na mesma antes de sair correndo.

Tinha o garoto vizinho, nome dele era Geraldo. Aqueles típicos garotos criados no carpete da vovó. Em um passado bem distante ele havia sido amigo do meu irmão, brincado por pouco tempo. Diz minha mãe que ele perdeu a espada de plástico lá em casa e depois contou pra mãe que meu irmão havia roubado. Meu irmão podia ser o diabo encarnado, mas roubar uma espada de 2 reais acho difícil. Só sei que o ódio entre as famílias era grande. A irmã dele chamava a gente de gentalha e morava no apartamento 206, logo ao lado do nosso: 205.

Um dia eu sabia que algo ia acontecer, algo radical o suficiente para devastar qualquer contato mais próximo. O Geraldinho estava de camisa cavada, meio bege. Andava malhando naquela época e passava sempre encarando nós que ficamos sentados na escada do segundo andar. Ele encarou, os três levantaram e sentado eu lá fiquei. Gritaram algum xingamento e ele entrou para dentro de casa com a promessa de voltar. Todos já tínhamos desistidos de que ele reaparecesse, e justamente no meio de uma conversa de ofensas, ele voltou. Eu só me lembro de três garotos socando aquele menino como nunca havia visto antes. Bateram de maneira tão severa, que eu preferia não olhar.

Acho que foi ali que me desassociei de qualquer contato mais intimo com meu irmão. Percebi que não era forte o suficiente para machucar alguém, não tinha a capacidade e nem o ódio para isso. Talvez por isso eu esteja em um caminho tão diferente e tenha conhecido pessoas importantes demais nessa vida. Pessoas que não tolerariam estar com um desses super-machões. Ás vezes sinto falta de bater em muitas pessoas, mas eu deixo para que nosso bondoso deus faça seu trabalho sujo.

*Nota: Meu deus é em minúsculo mesmo.

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Responses

  1. Hoje no caminho até sua casa, pensei no pacifismo, uma coisa que penso muito… na não-violência…
    Eu já fui um cara violento… hoje só gosto disso na literatura e no cinema.

  2. ´Um velho barrigudo, feio, deselegante, desbocado e bêbado chamado Charles Bukowski´
    Não conhece mas fiquei curioso, fui no google e li algumas coisas sobre ele. Fiquei mais curioso ainda que pretendo compra um livro dele. Eu gosto muitos de contos e tal. Linguagem simples, que falam sobre porres, relacionamentos baratos e tudo mais. Valeu a dica.

    hauhauha, meu blog vo levando, já passaram me xingando falando que tem muito erro de portugues, que não deveria me empolgar muito, mas eu acho muito melhor um blog como o meu o seu do que de metidos a intelectuais. É nois então! Vo termina de lê o seu aqui.

  3. Nossa, muito bom!

    Ta entre no meu favoritos já!
    Continue.


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