Publicado por: Renan Accioly Wamser | novembro 12, 2007

Feijão com arroz

Arroz e feijão

Despertei da minha cama com um delírio estranho. Essas coisas são normais na minha vida desde sempre. Imaginei que tinha uma suposta garota compromissada comigo, daí então eu encontrava a melhor amiga dela na rua e a beijava. Tudo isso como se eu fosse um maldito garanhão ou um desses bastardos que armam relacionamentos a fim de trair sua companhia. Essas loucuras sempre acontecem em meus sonhos, mas eu não tenho uma vontade real de ser qualquer um desses personagens que minha mente cria. Já acordei sendo o melhor jogador de futebol do colégio, fazendo um gol de meia-lua e sendo reverenciado por todos. Também fui um desses valentões que batem sem dó nem piedade, só que eu batia nas pessoas certas e não nos perdedores.

Talvez essas alucinações não-desejáveis sejam parte da característica própria do homem, ou quem sabe, um dia me transforme em desses otários que acham o Roberto Carlos o rei da música e não perdem nenhuma das danças do Faustão. A memória mais velha que minha mente consegue escavar é a da vez em que quebrei a perna do boneco que meu amigo me emprestou, isso deveria ser no maternal ou algo assim. Lembro que fazíamos filas para comer nosso lanche, e o boneco se esfacelou em minha mão, aquela foi minha primeira grande preocupação.

Parece que as piores coisas ficam gravadas na minha mente e me absorvem de maneira severa. Verduras. Por que eu não como aquelas coisas verdes repugnantes? Explicação simples: imagine visualizar todo dia a transformação de um saboroso prato de feijão com arroz em uma sopa de vinagre. Pois é isso que a empregada fazia. Sirlene era o nome dela. A sua testa era radiante. Espelhava todo óleo que a pele produz e quase me deixava cego, nunca olhei muita pra cara dela, somente para aquela montanha de testa. Ela não gostava que eu saísse de casa e pensava ser minha mãe muitas vezes. Tirando o momento do vinagre ela era uma garota legal. Nós nunca fomos ricos para ter empregada, então ela durou pouco tempo.

Sirlene sumiu da minha vida assim do nada. Minha mãe apenas disse que ela se mudou com um cara para não sei aonde. Senti saudade de quando ela jogava videogame comigo e meu irmão. Eu sempre fui um garoto esquelético e apresentava um físico frágil, mas era apresentável. Acho que não mudou muito de lá pra cá. Minha avó me disse que era cheio de vermes e tudo mais. Tinha tanto verme que comia sabão debaixo da pia. Do sabão não me recordo, mas lembro que minha língua era enorme – ainda é- e conseguia encostar ela no queixo e lamber resíduos de comida nos pratos. Já comi remela é claro, mas só pra saber o gosto daquilo.

Tirando a parte do vinagre, minha infância foi legal. Nunca quis ser outra pessoa ou me tornar bombeiro ou policial como todo mundo. Queria ser simplesmente o Renan Accioly Wamser, filho de um cara meio gordo que ronca muito alto e ficava me espremendo na minha cama para ver televisão e de uma mulher loira bem simpática que se preocupava demais com meu futuro, tanto que batia comida no liquidificador para que eu comesse. Ah! Isso eu também não queria ter vivido.

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Responses

  1. Tornar bombeiro ou policial? Aaaaah o sonho americano que todo brasileiro que ser

  2. menino rené!
    chegou a nova mayella versão blog!
    acesse!!!

  3. Meu amigo que post singelamente escatilógico (pele oleosa, comida batida no liquidificador, barriguinha de verme, comer remela, lamber restinho de comida, eca ! ) rsrsrs…Mas a verdade é que gostei, vc conseguiu ludicamente trazer à tona reminiscências infantis…E quem não as tem ? rsrs…

  4. a propósito.. é adonaaranha.wordpress.com !

  5. odeio vinagre, salada é só com sal pra dar gosto mesmo.
    Minha vó teve infinitas empregadas. Tinha uma, a Leila que trabalhou lá quando eu tinha uns 8 anos. ela era bem nova ainda. Sempre levava eu e minha irmã para passear. Ah, eu fico tãão nostágilca com essas coisas.

    E, para mim, você continua tendo vermes. Sua barriga que você exibe ao léu pra todo mundo é um tanto bizarra haha

    brincadeira.

  6. Já acordei com teu pai roncando.
    Foi assustador.

  7. Freud explica!
    Sem inspiração para comentários hoje…

    beijos.

  8. Hahahah, adorei esse.
    RC não é o melhor + é legal. Bom saber q vc era comedor de sabão e remela.


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