Publicado por: Renan Accioly Wamser | novembro 6, 2007

Camarada

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— Vamos lá, cara.— Vou nada. – falei.

— Mas eu prometi pra minha namorada que iria. – com uma cara de pedinte safado.

— Porra, cara, não to afim não, vai ser mó zuado esse trem, não conheço ninguém e você vai ta com sua muié.

       São milhares de convites em toda nossa vida. Festas, passeios, eventos, viagens, shows, e muitas outras coisas que não lhe interessa. A vontade de não fazer a menos que tenha algo já planejado na sua cabeça, não me agrada. Minha carga de pessimismo é alta, mas eu sempre acabo cedendo. Desta vez eu estava certo. Morando distante dos meus melhores amigos, fui pego desprevenido com a notícia de um suposto namoro que o Jay estaria vivendo. Foi um choque. Jay era um desses caras que fizeram parte da minha infância, era meu melhor amigo e tinha sérios problemas de timidez.

       Não são problemas normais de timidez que todos nós temos na nossa infância. Ele suava e não conseguia se expressar só de ver uma garota se aproximando. Para piorar era mestiço, uma mistura estranha de japonês com mulato, o chamávamos de japonego. Acho que nunca em sua vida teve contato com garotas, além de suas familiares. Sua reputação na escola era a pior possível, era esculachado por todos os outros alunos bastardos. Até as garotas não perdoavam seu ponto-fraco. Mas para mim, ele continuava sendo um grande cara, com atributos de um grande amigo e alguns problemas que poderiam ser solucionados. Eu achava isso até o dia em que recebi aquele convite.

       Sua namorada era bem menos bonita do que aparentava nas fotos, e ele levava o relacionamento de uma forma extremista e totalmente amadora. Pessoas com severos problemas costumam camuflar seus defeitos e querer se tornar outro sujeito na frente do seu companheiro. Era assim. Ele andava com o Astra do seu pai escutando Shakira e usando roupas que não combinavam com sua personalidade. Notei aquilo naquela viagem que sua namorada arranjou e adquiri um desprezo momentâneo por todos integrantes daquele carro.

      Chegamos à chácara, e além de cuidar do meu próprio ego social, tive de fazer as honras do meu amigo, que não se comunicava com ninguém dos cem convidados ali presentes. Não estava gostando daquilo, então comecei a beber compulsivamente. Tinha cerveja long-neck à vontade e me fartei juntamente com uns caras que conheci por lá. Ele ficava lá falando com aquela garota raquítica sobre coisas cretinas que não me interessavam. Naquele momento, percebi o que estava acontecendo, minha amizade de mais de seis anos estava se dissolvendo. Gostei da notícia que ele estava namorando, quero a felicidade dos meus companheiros. Mas ele não era mais meu companheiro. Era outra pessoa que eu não conhecia. Só mais um cara de dezoito anos se gabando com coisas que não possuía.

      Nós bebemos até não agüentar mais e eu nem vi o que sucedeu naquele dia. Dormi encostado na roda do carro e acordei de noite assustado. Entrei na cabana que iríamos dormir e vi os dois naquela cama. Pensei que as coisas poderiam melhorar e que foi só um erro de comunicação ou algo assim. Pioraram. Eles começaram a transar enquanto eu tentava dormir. Não sei, sabe. O ato em si não me incomodava, mas a falta de consideração pela minha presença me deixou atordoado. Depois desse dia as coisas só se agravaram, ele não saia mais com nosso grupo de amigos e foi capaz de nos deixar sozinhos em sua casa para sair com sua namorada.

       Estava ressentido por estar perdendo aquele grande camarada. A culpa não era minha e eu não tinha nada o que fazer. Reforcei outras amizades e deixamos ele de lado. Até queríamos sua companhia de volta, mas não iríamos gastar o mínimo de esforço por um cara que não entendia nada do que estava fazendo. Lembro de todas suas gafes como a melhor fase da minha vida. Como quando ele com vergonha de pedir papel higiênico na coordenação do colégio, cagou no banheiro e limpou a bunda com sua meia. Tudo isso, todos esses sentimentos e lembranças foram apagados por uma garota. Soube agora que ela deixou dele. Só lamento que isso não tenha acontecido antes.

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Responses

  1. ahhhh, isso acontece…acho bobagem esse negócio de esquecer o mundo e se trancar no mundinho “baby, I love only you”…Qundo o namoro vai pro brejo a criatura fica perdida no espaço sem encontrar os amigos, sem ter o q fazer…ahhh ter ciúme do camarada também é normal kkkkk….

  2. Hey, essa história de cagar e limpar com a meia não me é estranha…Renan, sou sua fã.

  3. Um cara que muda o seu comportamento por causa de mulher é revoltante. Eu valorizo o meu ser, mesmo que não me dê muito bem com elas, as mulheres terão que gostar do meu jeito, de como sou, pra ficarem comigo…e a mesma coisa com elas. Desde o começo demonstro como sou, se não gosta, tudo bem, ninguém neste mundo deve mudar caráter por causa de uma namorada ou namorado. Isso representa uma total falta de personalidade!

    E pra mim exige mais coragem de limpar a bunda com sua própria meia do que pedir pra coordenação por um pouco de papel higiênico! E meia só dá pra usar uma vez, duas se for com o par! Eu gasto muito papel higiênico, certas áreas do meu corpo são mais limpas do que o resto. Mas é como dizem por aí: Evite SEMPRE cagar fora de casa.

    Aquele abraço

  4. Eu prefiro a sua história de vomitar no penal. Hilária.

  5. As pessoas não percebem que relacionamentos acabam, mas quando isso acontece, elas já não possuem amigos, colegas ou algo inferior a isso para poderem se confortar.
    É o grande erro dos amantes, achar que paixão é eterna, se nem amor é…
    Já dizia Nando Reis: “Nenhum amor é imortal”
    Pelo menos agora ele vai dar valor aos amigos, ou na vida que ele levava antes de ser dominado pela fêmea.
    Eu me lembro dessa sua viagem…auhauhauhauhahaha
    E não me canso de te dizer que você escreve bem, viu?

    beijos


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