Seu único amigo inseparável e talvez a única coisa que o compreendesse naquele mundo era o Tob. Sua toca vermelha estilo caçador com proteção para os ouvidos. Ganhou de seu pai quando o mesmo foi caçar e nunca voltou. Tinha assinado o nome Tob nela, e assim ficou. Dos quatro aos quinze usou aquela toca como se fosse um escudo que lhe protegesse. E no colégio aquilo ainda dificultava mais um contato, era estranho demais para andar com os mais estranhos.
Quando alguém tocava o mínimo fiapo de seu cabelo ruivo era como se adentrassem em sua privacidade e descobrisse cada pedaço do seu ser, uma sensação parecida com a de puxar as cuecas de um garoto no pátio do colégio. E deus sabe o quanto isto descontrolava Junior. Podiam estar atirando no Papa que ele nada faria, e se o Papa passasse a mão em sua cabeça ele seria o atirador.
Nunca teve problemas com notas porque a rotina da sua vida o fez assim. Mas mesmo em sala fazia tudo sozinho e aquelas intermináveis ajudas dos professores em tentar enturmá-lo o machucava ainda mais. Até que um dia daquele oitavo ano, no começo da segunda aula a porta de metal se arrastou chão afora e a coordenadora entrou com um salto agulha bicando o chão. Podia ser mais uma nova regra do colégio ou quem sabe algum aviso bobo. Não, um novo aluno havia chegado ao colégio e ficaria naquela sala.
A coordenadora Sílvia puxou aqueles braços e logo Jonas percebeu que eram finos e longos braços que se iluminavam com a luz que saia lá de fora. Era uma garota e J.J a conhecia. De todas as milhares de garotas que já haviam passado no salão abaixo da sua casa, aquela que estava ali na sua frente havia sido a única que um dia ele pensou em encontrar. Logo após entrar no salão ela havia batido a porta de vidro e saído em disparada daquele lugar. Era como se seu desejo estivesse se realizando, pensou em correr, mas não foi. Nunca esqueceu aquilo.
Então a coordenadora bicou o chão com o salto como se estivesse alertando os alunos e exclamou:
— Está é a mais nova colega de vocês. Seu nome é Sara e ela acabou de chegar da Europa. Ela passou por momentos difíceis lá e gostaria que vocês a tratassem bem.
Cintia, estúpida nerd que sentava lá na frente, levantou a mão e com aquela curiosidade infame perguntou:
— Momentos difíceis, por quê?
A garota que até agora não havia falado nada, puxou a toca azul de lã que usava e mostrou a toda classe sua cabeça rapada, dizendo em alto e bom som:
— Leucemia, acabei de me recuperar.
Ao contrário de todos que estavam pasmos com aquela declaração, Jonas Junior sorriu.
Encontrar cumplicidade é difícil por demais nos dias de hoje. Fico feliz por Jonas Junior.
Escreves bem.
Por: Taísa em Setembro 2, 2008
às 4:43 am
Gostei dele, bom garoto.
Por: Jairo em Setembro 22, 2008
às 2:20 pm